Desacelerar faz bem.

Matteus Almeida
4 min readMar 28, 2023
Photo by Morgane Le Breton on Unsplash

Byung-Chul Han, no livro a sociedade do cansaço, afirma que estamos vivendo uma mudança de paradigma social onde nós somos os nossos próprios algozes. Explico, em uma sociedade onde a “hiperatenção” e o extremo desempenho é supervalorizado inevitavelmente desembocaremos em fadiga e cansaço.

Por exemplo, lembre-se quando foi a última vez que você fez uma única tarefa por vez. Constantemente estamos correndo atrás de maximizar o desempenho, aproveitando todos os intervalos de pausa para aprender, reter mais e mais informações a fim de sermos mais produtivos, pois não podemos ficar para trás nessa corrida frenética que nunca termina e que não sabemos onde que vai parar, todos a nossa volta estão vivendo acelerados e ocupados e nós não podemos ficar de fora. Você já parou para pensar por que as coisas são tão aceleradas? Perceba que tudo em nossa sociedade gira em torno do lema: “mais depressa é mais eficiente”.

Enquanto lavamos a louça, ouvimos música. Durante a caminha matinal, escutamos podcasts e notícias. Ao sentar à mesa para a refeição, checamos as nossas redes sociais e e-mails. Ao exercitar-se na academia, se possível, estudaríamos para as provas de concurso que estamos prestando. Isto é, inconscientemente somos inimigos do tédio e consequentemente da contemplação, contudo, a contemplação é uma atitude extremamente necessária para conceder profundidade, meditação e descanso para a alma. Ligados em modo “multitarefa” deixamos o mundo e a realidade passar despercebida diante de nossos olhos. Perdemos os sabores e dessabores da vida. É a realidade dos autômatos, é viver no piloto automático.

“O excesso de elevação do desempenho leva a um infarto da alma.” (Byung- Chul Han)

O filme “Click” retrata algo semelhante. O personagem Michael Newman descobre um controle remoto que concede o poder de acelerar os episódios monótonos da vida. Todavia, Michael percebe tardiamente que os momentos “parados” e sem sabor da vida fazem parte do agridoce da existência, decidir acelerar os momentos chatos da vida é decidir perder também os momentos cruciais, pois tudo é simplesmente a vida, o ordinário e o extraordinário estão mesclados e indissociáveis. No afã de acelerar os momentos a fim de chegar na concretização de seus objetivos Michael percebe que perdeu os seus relacionamentos fundamentais, sua família, e também a própria vida. O filme tece críticas contundentes à sociedade do trabalho que não tem tempo para aproveitar o que é realmente importante na vida.

Quando foi a última vez que você deixou uma leitura ou uma música penetrar a sua alma? Há um tempo atrás, antes dos “streamings”, nós comprávamos as produções musicais de nossos artistas favoritos, os discos eram comprados e nos pertenciam. Lembro que eu comprava um CD e ouvia todo o álbum em silêncio, no escuro do meu quarto. Afinal, cada canção foi cuidadosamente escolhida bem como a sua própria ordem na sequência do disco para ser apreciada. Meses de trabalho artístico musical eram apreciados em algumas horas (à depender do tamanho do disco), era uma experiência transcendental, um alimento para a alma.

No livro Devagar, Carl Honore faz uma análise social bastente interessante:

Em nossa era saturada de mídias e informações, uma era de jogos eletrônicos e permanente mudança de canal, esquecemos a arte de não fazer nada, de deixar de lado as distrações e os ruídos circundantes, de moderar o ritmo e simplesmente ficar em companhia exclusiva de nossos pensamentos. O tédio é uma invenção moderna. Basta que todos os estímulos sejam eliminados, e começamos a nos impacientar, entramos em pânico e tratamos de inventar alguma coisa, qualquer coisa, para fazer e, assim, dar algum emprego ao tempo. Todo mundo está ocupado demais lendo o jornal, curtindo jogos de vídeo, ouvindo iPods, trabalhando no laptop, se lamuriando no celular. Em vez de pensar profundamente, ou permitir que uma ideia fique germinando em algum ponto do cérebro, nosso instinto hoje em dia é de lançar mão do ruído mais ao alcance.

A nossa sociedade perdeu o encanto não somente com a arte musical, mas com as maravilhas da vida. As artes visuais e a música são apenas o plano de fundo de nossos vídeos instantâneos, ruídos ininteligíveis que nos tiram do silêncio ensurdecedor de nossas rotinas monótonas e cansativas.

Outrora existiam os chefes que nos cobravam e pressionavam, agora com a mudança de paradigma você é o seu próprio chefe que nunca se satisfaz. Antes nos deslocávamos para o “trabalho” e a casa era o nosso lugar de paz, sossego e refúgio, hoje carregamos os nossos “empregos” para o interior de nosso lar, na verdade, vivemos no interior de nosso trabalho. Enquanto o caramujo carrega de lá para cá o lar em suas costas, o homem pós-moderno arrasta o seu corpo cansado e oprimido pelo fardo de seu labor. Não há descanso, pois o nosso chefe interior não admite pausa, se pararmos seremos ultrapassados por alguém que nem sabemos quem é de fato. É a máxima de nossos dias: “trabalhe enquanto eles dormem.” e assim caminhamos mais rapidamente para a exaustão da alma.

“A autoexploração é mais eficiente que a exploração do outro. O explorador é ao mesmo tempo o explorado. Agressor e vítima não podem ser distinguidos.” (Byung- Chul Han)

O excesso de informações e estímulos nos torna insensíveis ao mundo real. Fazer tarefas uma por vez, nos concede aprofundamento contemplativo. Por outro lado, realizar multitarefas faz com que sejamos rasos e superficiais em nossa percepção da realidade. É necessário tempo, maturação, meditação e contemplação para acessar as profundezas do conhecimento, não existe reflexão dissociada destes elementos.

“Se o sono perfaz o ponto alto do descanso físico, o tédio profundo constitui o ponto alto do descanso espiritual.”

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Matteus Almeida

Missionário no Sertão Cearense. Uso o Medium para salvar os meus sermões e reflexões.